Thor: Ragnarok entrega um filme mal aproveitado com piadas para cobrir seus erros

Atenção: Este texto contém pequenos spoilers da trama de Thor: Ragnarok.

Compreende-se que a atual situação do Universo Cinematográfico da Marvel é grande demais com suas histórias paralelas que se entrelaçam entre os vários filmes já lançados. Esta questão de universo compartilhado muitas vezes pode complicar um determinado tipo de narrativa, principalmente quando o público que não acompanha tanto aos filmes pode não compreender o que está se passando na tela. Mas, ao analisarmos um determinado tipo de filme, principalmente os da Marvel Studios, excluímos a questão do universo compartilhado e, assim como vários outros filmes, olhamos apenas ele como um todo ou então a sua trilogia (ou sequências). Com Thor: Ragnarok, não apenas existem problemas de eventos sequências de filmes anteriores como é muito mal trabalho.

Com direção de Taika Waititi, a sequência do deus do trovão vem com uma proposta que seus filmes já sofrem em tentar: Ser menos sombrio e apostar radicalmente com cenas cômicas e despretensiosas. O problema é que são essas cenas cômicas que muitas vezes servem apenas como um suporte para tampar os buracos da narrativa mal desenvolvida e preguiçosa. Ora, vemos em filmes anteriores que Loki era muito mais inteligente do que aparentava ser, conseguiu enganar guerreiros e seres asgardianos, para no final, sua farsa ser desmantelada por Thor em uma cena de 5 minutos. Cortes rápidos e já estamos na Terra, com mais piadas, e vemos que Doutor Estranho por algum motivo não esclarecido quer que os deuses asgardianos caíam fora da Terra, mesmo Thor ajudando salvar o mundo (e o universo) várias vezes. Uma cena que poderia ser muito bem explorada foi transformada em mais sequências de piadas mal elaboradas.

Por mais que Waititi seja conhecido pelos seus filmes de comédia ácida bem construídos, parece que em Thor: Ragnarok existe um conflito entre tratar um tema tão complexo e fechado como a queda dos deuses, incluir a mitologia do Universo Marvel que veio de outros filmes, explicar novos contextos da narrativa que jamais foram mostrados em qualquer outro filme, como o fato de Hela, a deusa da morte, ser simplesmente filha de Odin. Você tem um bolo pronto e segue as regras, neste caso é como se o roteiro de Eric Pearson tivesse espaços como “insira sua piada aqui”.

É triste perceber isto, principalmente pelo fantástico elenco que o filme carrega. Loki de Tom Hiddleston continua inconfundivelmente bom, mesmo que tenha seu tempo em tela mais reduzido, Thor de Chris Hemsworth melhorou muito desde suas primeiras aventuras como filho de Odin e com Hela, interpretada pela fantástica Cate Blanchett, a Marvel mostra que possui excelentes vilões, mesmo que sejam usados e descartados tão mal. Karl Urban, que interpreta o vilão clássico Executor, passa o filme inteiro em conflito consigo mesmo e nem exerce a função que foi designado (executar), o que chega a ser ridículo principalmente para Hela.  E pior, a explicação para a sua presença e benevolência da deusa se dá por uma explicação vazia de um passado mal explorado.

Mas, nem tudo é perdido. Mark Ruffalo traz novamente sua formidável atuação como Hulk, que por mais que esteja diferente do arco Planeta Hulk (HQ) e tenha sido trocado de um líder guerreiro inteligente para um monstro verde, estupido e que faz piadas vagas, se encaixa com a proposta que o filme tenta correr. As novas adições como Tessa Thompson como Valquíria e Jeff Goldblum como Grão-Mestre são fantásticas e trazem cenas que são incrivelmente engraçadas, principalmente as que incluem a guerreira. A química entre ela e Chris não é tão forte, porém proporciona momentos muito bons.

O filme ainda tende de ignorar situações de filmes anteriores, onde personagens tão importantes para a mitologia e desenvolvimento ao longo dos filmes do Thor como por exemplo Jaimie Alexander que interpretava Lady Sif e todo o núcleo de heróis foram totalmente ignorados neste filme ou receberam uma morte ridícula.

Ainda assim, o filme acerta muito no designer e nas cores. Tudo é muito colorido, as músicas baseadas no Techno pop dos anos 70-90 se encaixam com as cenas de uma maneira fluída e todo o planeta Sakar, incluindo a arena de batalhas, tem um visual bem elaborado. Atenção para a Torre do Grão-Mestre, que indica que um personagem muito importante nas histórias do Thor existe no UCM.

A jornada de Thor e toda a história de Asgard pode ter começado com o pé esquerdo lá em 2011 e a sua dificuldade de encontrar o tom certo durante os anos pode ter prejudicado toda a narrativa até este filme. Em Ragnarok, se não fosse a excessiva carga de detalhes e contos do UCM e que veio juntamente com os outros filmes confusos, poderia ter alcançado um patamar que outros filmes da Marvel andam alcançando facilmente, principalmente no humor (como Guardiões da Galáxia). O filme termina com um final que possibilita várias alternativas pós-Vingadores 3, mas toda a mitologia que poderia ser bem explorada se perdeu em filmes que não sabiam para onde ir.

Thor: Ragnarok estreia dia 26 de outubro aqui no Brasil. Se você não tem nenhuma outra prioridade de filme para ver no cinema, este pode ser um filme que compense levar a família e amigos para assistir. Diversão mediana, filme visualmente bonito e Hemsworth sem camisa.

Destaque: Taika Waititi como o guerreiro de pedra Korg é muito bom!