O terror classudo e incômodo de Get Out!

As portas parecem estar abertas agora para Jordan Peele. O humorista estreante no gênero terror traz em seu novo filme, Get out! (em tradução pt-BR para Corra!), um horror psicológico acentuado e certeiro atirando com maior arma dos dias atuais: o racismo. Mais conhecido por fazer parte do elenco de MADtvKey and Peele (ambos seriados humorísticos), o diretor parece confortável em colocar o dedo na ferida, entendendo que ao contrário do que trabalhara na comédia, o terror pode facilmente expôr de uma forma mais escrachada seu sorriso amarelo do quão fodida a sociedade é.

A combinação certa de texto e hipóteses no tempo certo mostra o quão habilidoso um humorista pode ser, vide stand-ups americanos antigos de Chris Rock ou Eddie Murphy (ambos disponíveis na Netflix): um negro falando de racismo em formato de piada ou fazendo sátira do vitimismo? Quem diria. Murphy já dizia sobre esse papo lá em 1983, na esquete de seu show Delirious (de onde saiu a ideia para o filme), onde contava sua experiência de visitar a família de sua namorada branca e o quão problemático isso poderia ser.

Get Out
Jordan Peele esboça o tema de seu horror: ser negro nos EUA!

Saindo de sua bolha, o diretor prometeu logo em seus primeiros trailers abordar de forma intelectual e psicológica uma realidade escondida norte-americana. Não há monstros debaixo da cama, bonecos assassinos ou entidades extra-dimensionais, nada a esperar por trás da porta além do famoso dedo na ferida. Entranhada em um panorama diferente, o racismo norte americana parece ser mais acentuada que aqui, embora época pós-Obama tenha levantado o discurso de “O racismo não existe, temos até um presidente negro agora. Deixemos isso pra lá!” e voltando a tona com a eleição de Trump, o contexto ainda é o mesmo para a realidade das pessoas negras.

Daniel Kaluuya (facilmente reconhecido por aparecer em todos os posteres e imagens escorrendo lágrimas) faz um excelente trabalho interpretando Chris Washington, um fotógrafo que vai viajar com a namorada para visitar/conhecer os pais dela. Com medo, Daniel consegue transparecer um ligeiro incômodo, mesmo que ainda arranque um sorriso meio amargo como era na época de Black Mirror.

“Vai ficar tudo bem, meu pai sempre diz que votaria no Obama pela terceira vez se fosse possível”, diz Allison Williams no papel de Rose Armitage, namorada do protagonista.

Desconfortavelmente, Peele consegue cruzar sua veia humorística com terror e mostra se um exímio diretor/produtor/roteirista criando aquele universo balanceando se entre o horrível e o ridículo. A ideia de um filme de terror calcado em fatos históricos ou atuais costuma enjoar seu estomago de uma forma mais coesa que monstros e alienígenas. Black Mirror trouxe muito disso em suas três temporadas: a tecnologia não é o problema e sim a interação social que ela causa ou te priva.

De forma hostil, o longa te desorienta conforme o tempo passa, sendo mais pra contar um história de terror do que desdobrar a trama final. Peele quer que seu espectador entenda que no final, apesar de uma ficção (aquele ponto de vista), a realidade é distorcida e mais complexa envolvendo a sociedade negra.

Em tempos desse assunto ser abordado de diferentes formas (vide a nova original Netflix, Dear White People que investe na mesma proposta), o filme funciona mais como mensagem do que como cinema.

O problema é que a realidade é bem mais crua e sem direção. Infelizmente.