Journey Into the Night – Westworld (S02-E01)

Por: Patrick Andreozzi

A primeira temporada de Westworld, da HBO, certamente conseguiu enriquecer a história do filme original homônimo escrito por Michael Crichton em 1973. Seja pelos mistérios e resoluções lentas, ou a distinção psicológica e diferentes motivações dos personagens, a série televisiva que estreou em 2016 foi um grande destaque entre o público, mas a jornada de Dolores (Evan Rachel Wood), Bernard (Jeffrey Wright), Maeve (Thandie Newton) e o Homem de Preto (Ed Harris) está só no começo. Na última quarta-feira (19), tivemos a oportunidade de conferir o primeiro episódio da segunda temporada da série, que estreia na HBO neste domingo (22), às 22h do Horário de Brasília, e nós te contamos – sem spoilers – o que você pode esperar do tão aguardado retorno de Westworld.

O season finale da primeira temporada respondeu algumas questões desenvolvidas pela narrativa de seus nove episódios anteriores, mas não perdeu tempo em também nos questionar sobre futuro do parque, anfitriões e humanos de toda a dicotomia da série: o bem e o mal, assim como o futuro e o passado, são subjetivos nas camadas mais profundas de Westworld, e cabe à história descascar todos os níveis de sua complexidade através das motivações dos personagens. É isso que o primeiro episódio da segunda temporada faz – ou começa a fazer. Intitulado “Journey Into the Night”, o episódio que marca o retorno de Westworld serve para estabelecer os novos impulsos de Dolores, Maeve, Homem de Preto e Bernard, sem medo de provocar a audiência sobre o futuro dos protagonistas.

Estruturalmente, Journey Into the Night segue os padrões pré-estabelecidos pela primeira temporada e narra diferentes pontos de vistas através de seus personagens principais. Como dito, os alicerces fundados desta vez são Dolores, Maeve, Homem de Preto e Bernard, e transitamos entre o passado e presente para entender a complexa ideologia absorvida por cada um deles com todos os acontecimentos da temporada anterior. A melhor forma para analisar este episódio de forma isolada do contexto geral é dividi-lo entre o velho e o novo, ou seja, rostos conhecidos e desconhecidos, assim como os novos e velhos incidentes.

A inocente Dolores não é mais tão inocente assim. Seu laço com Ted (James Marsden) se mostra cada vez mais forte e, a partir de agora, ela tem o controle de seu próprio destino – ou acredita que tem. Julgar qual personagem teve uma caminhada mais difícil no passado do parque é um tarefa quase impossível. A atriz Evan Rachel Woods desempenhou seu papel da “dama em perigo” em episódios anteriores, mas, como acompanhamos no último episódio da primeira temporada, a mocinha ganhou consciência de suas capacidades e sua nova missão no parque. Maeve, da atriz Thandie Newton, também passa por revelações que mudam seu caráter e objetivo, e se torna peça chave no labirinto de Westworld.

Do outro lado, temos o não mais entediado Homem de Preto, que pela primeira vez encontra saciedade na atração turística do futuro; “o jogo mudou“. Bernard não fica de fora da lista, já que a grande reviravolta do primeiro ano de Westworld acontece com o personagem de Jeffrey Wright. Se a primeira temporada se permitiu mistérios e guardou um novo sopro narrativo a cada episódio, o segundo ano da série não deve mudar tal formato ao preferir reservar ainda mais desfechos sinistros a Bernard. Journey Into the Night anda sobre uma tênue camada de perguntas e respostas – mesmo que já nos prepare quanto aos anseios dos protagonistas. Isso significa que novas caras desempenharão papéis interessantes na série produzida por Jonathan Nolan, Lisa Joy e J. J. Abrams, enquanto rostos conhecidos devem tomar decisões inusitadas.

Mesmo com inúmeras interações entre protagonistas e personagens secundários, o episódio consegue se desenvolver em uma crescente e não cansa com fatos irrelevantes. A dominação de Maeve e um novo problema com Bernard encontram momentos mais sutis quando agem de forma aparentemente irrelevante, mas é preciso lembrar que sempre há um propósito para as ações em Westworld – nada é gratuito, nem mesmo a violência.

Entrar em detalhes quanto a narrativa do primeiro episódio da segunda temporada seria estragar a experiência que ele propõe. Seu arco funciona como a grande estrutura que elevará o segundo ano da série e trilha o primeiro passo de cada anfitrião e humano desta jornada. A tecnologia do parque ganha novos recursos que servem como amplificadores da mitologia criada por Michael Crichton, mas são brevemente inseridas para não causar uma avalanche de informações no espectador. Westworld é uma série que se permite caminhar a passos mais lentos e encontra êxito dividir acontecimentos simultâneos de forma leve e dramática. Não é preciso pressa para entreter, a história e personagens fazem isso automaticamente através da sólida escrita do roteiro. É justo destacar que algumas decisões precipitadas dos protagonistas podem causar estranheza, mas tal recurso serve para aliviar tantas perguntas que ainda temos sobre a ficção da HBO.

Os fãs da violência visual ficarão satisfeitos com Journey Into the Night, uma vez que o “gore” e a brutalidade também marcam presença na estreia do segundo ano. Já os mais imediatistas podem sentir desconforto com as poucas resoluções que assistirão no próximo domingo (22). Não espere respostas agora – elas virão com o passar do tempo. Preocupe-se no estabelecimento das novas regras do jogo, novas perspectivas narrativas e o destino que cada um da história define.

Ainda há um longo caminho a ser percorrido, mas a estreia do segundo ano de Westworld vem com tudo para abrir a selva de mistérios que envolveu os fãs ansiosos por novos desfechos. Conhecido e desconhecido se esbarram em meio às intrigas e novas perspectivas dos protagonistas, mesmo que o episódio mantenha a fórmula pré-estabelecida e já engolida pelos espectadores. Journey Into the Night consegue balancear sua própria estrutura ao dividir o peso narrativo sem abrir mão de nos provocar e conspirar sobre o futuro de Westworld. O retorno da série reafirma circunstâncias anteriores e se apóia também no desconhecido para manter o público conectado com o que vem a seguir. No final, sentimos um gosto de “quero mais” enquanto ansiamos os próximos episódios.