Crítica | Viva – A Vida É Uma Festa

Crítica por: Adam William


Conhecida por cativar adultos e crianças – e quase sempre fazê-los chorar no processo –, o estúdio Pixar passou por um momento difícil quando, ao priorizar continuações, fez o público se perguntar se a criatividade havia se esgotado. Dos trabalhos mais recentes, apenas Divertida Mente realmente conquistou público e crítica, sendo um dos melhores filmes de 2015 e da história do estúdio. Eis então que a Pixar novamente retorna à boa e velha forma em sua nova obra-prima: Viva – A Vida É Uma Festa (Coco).

Os primeiros minutos trazem uma introdução na qual aprendemos que a matriarca da família foi deixada por um músico e, não se deixando abalar, começou a fazer sapatos. O oficio foi passado de geração em geração, tal como o rancor pela música, que se tornou algo banido da família. Mas o protagonista Miguel (Arthur Salerno) tem a melodia na veia e aproveita cada escapada possível para tocar, até que vê a oportunidade perfeita para mostrar seu talento no festival do Dia de Los Muertos.

Após uma discussão com a família e uma confusão durante o festival, Miguel acaba atravessando a linha da vida e da morte, reencontrando e conhecendo seus familiares já falecidos. Com um tempo limitado antes que não possa voltar ao mundo dos vivos, traça como objetivo conhecer seu ídolo, Ernesto de La Cruz (Nando Pradho) e, para isso, contará com a ajuda de Hector (Leandro Luna).

Aproveitando-se da rica cultura, o filme brinca com as populares caveiras mexicanas, fazendo todo o mundo muerto um show à parte, mas com cuidado para não fugir da proposta inicial, respeitando o conceito da festividade. Além disso, piadas específicas trazem figuras como Frida Kahlo, com um humor que pode não ter um apelo tão grande para o público infantil, porém demonstram o esmero em manter o regionalismo.
Todo o aspecto visual da produção é primoroso, mas um destaque vai para o design dos personagens também é cuidadoso, de forma que possamos reconhecê-los em vida e na morte, respeitando as nuances físicas e faciais de cada um. Há também muitas brincadeiras com os corpos ossudos, com personagens que montam e desmontam, dando um dinamismo e comicidade única à certos momentos.

Trazendo a música como um dos temas centrais da história, a trilha sonora não poderia ser deixada de lado. Quase um musical, as canções originais compostas para o filme são excelentes e são parte intrínseca da trama, sendo difícil destacar apenas uma – ainda que Lembre De Mim seja a canção que “protagoniza” as cenas mais tocantes do longa. Michael Giacchino foi o responsável pela trilha sonora instrumental, que também não deixa a desejar.

A Pixar também lembra ao público sua habilidade ao desenvolver personagens. O protagonista Miguel, mesmo jovem, carrega consigo todo um conflito que é bem explorado no decorrer do filme, com um amadurecimento crível conforme a trama avança. Sua jornada contrasta perfeitamente com o drama do personagem Hector, ao passo que os dois personagens se complementam e evoluem juntos.

Primoroso em todos os aspectos, Viva – A Vida É Uma Festa mostra a que veio, trazendo consigo toda a aura de criatividade e beleza que povoaram uma geração dos filmes da Pixar, emocionando jovens e adultos. Quando surgem os créditos, não restam dúvidas de que o filme é uma verdadeira obra-prima do estúdio e, assim como a música principal indica, deve ser lembrado com carinho pelo espectador, que provavelmente estará enxugando as lágrimas na saída do cinema.