Crítica | O que existe por trás do céu?

Existem nuvens, chuva, sol, lua, planetas, preces, sonhos, Deus, Deuses, Diabo, infinito, esperança e mil e uma ideias que o diretor e também roteirista Caio Sóh busca explicar com leveza, poesia e calmaria nas terras secas do sertão nordestino de João Pessoa no filme Por Trás do Céu.

O longa metragem conta a história amargurada e idealizadora de Aparecida (Nathalia Dill) que após um evento traumático esforça-se em seguir em frente e busca em seus sonhos amenizar sua dor, opostamente ao seu marido Edivaldo (Emílio Orciocello Neto) que é atormentado por este acontecimento e não compreende os sonhos de sua esposa, sendo assim, busca todos os dias uma resposta racional para colocar um fim em sua dor.

A personagem Aparecida é sonhadora com uma boa pincelada do mundo feminista. Ela faz o impensável tornar-se extraordinário e busca no céu respostas sobre suas fraquezas e angústias. Talvez a escolha da atriz lhe trás insegurança, entretanto Nathalia Dill foi competente em sua realização. Edivaldo apesar da rigidez ele é um homem com alguns princípios machistas, pode-se dizer que ele é um homem rustico e sensível.

A maioria das pessoas estão acostumadas com filmes nordestinos que retratam o local como miserável e sofrido, porém o diretor sugere uma nova proposta, pela qual proporciona a desfocalização do local e a sintonização da essência desta narrativa. Durante o filme existem diálogos filosóficos sobre a modernidade, miséria, o impossível, as pessoas, apreciação de alimentos, nossas próprias doenças, entre outros; estes pensamentos e discussões são centrais para o entendimento do longa, se o telespectador logo preocupar-se com o sotaque ou vestimenta perderá boa parte do filme, já que esta não é a proposta.

O melhor do filme é realmente pensar sobre a vida de um modo geral e nos questionar sobre o que existe entre o céu e a terra, entre o sonho e a realidade, o possível e o inacreditável, o tentar e desistir. Mas principalmente, em não deixar nas mãos dos céus o que quer fazer, se quer algo, talvez um sonho impossível, faça algo, tente alcançá-lo e não pare até conseguir. Isto é, seja uma Aparecida e pense nas nuvens. E se porventura as coisas complicarem coloque os pés no chão e assuma o Edivaldo.

Além disso, a fotografia do filme possui vários tons de azul céu, cinza e tons de terra, um contrate oposto do que se vê em filmes nordestinos, já que a maioria destes filmes retratam o intenso calor e a terra seca. Os objetos que compõe o filme transformam a cabeça do telespectador e por frações de segundos esquecemos que estamos no nordeste e nos transportamos para um outro plano. O título peculiar é bem exposto durante o filme e bem simples de entender. O desfecho da história é o início de outra, que o diretor/roteirista fez muito bem em não dar mais explicações e encerrou o filme de forma digna.

Além de um filme filosófico, é também um filme sobre pessoas, céu, sonhos e outros tantos assuntos entre a modernidade e a simplicidade. Parabéns seria pouco para Caio Sóh por nos proporcionar este lindo filme.


Confira nossa entrevista com elenco e produtores do filme: Entrevista | Elenco de Por Trás do Céu