Crítica | Fahrenheit 451

Critica por: Paulo Gustavo

Cara, isso é muito black mirror! Veja o que achamos de Fahrenheit 451, a novidade da HBO que estreia neste sábado.

Quem precisava ver Michael B. Jordan depois do sucesso de Pantera Negra, agora pode conferir o filme Fahrenheit 451, produzido pela HBO Films. Tá certo que estamos dentro de uma onda de filmes e séries distópicas, faz um tempo, mas esse telefilme veio pra somar.

Para quem não conhece, Fahrenheit 451 é um romance de ficção científica, escrito por  Ray Bradbury e publicado em 1953. Foi adaptado para o cinema por François Truffaut, em 1966, e agora volta às telas na HBO como filme, pelas mãos do diretor Ramin Bahrani, depois de estrear em Cannes.

A história acompanha uma sociedade futurística, tecnológica, bem estranha, que vive um sistema de governo autoritarista, com direito a lavagem cerebral por meio de programas de TV (qualquer semelhança com a música Televisão dos Titãs, é mera coincidência). E como toda mãe já falou: Sai dessa tv, moleque, e vá ler um livro! Lá não tem isso, não. Livros são proibidos, e as crianças são ensinadas desde pequenas a terem uma repulsa à literatura. O corpo de bombeiros é treinado para incinerar qualquer tipo de livro (menos a Bíblia e Moby Dick, que são considerados livros oficiais). Isso mesmo! O bombeiro não apaga o fogo, ele coloca o fogo. E a queima de livros é televisionada e passada em grandes telões e televisores para todo o público. Bem doido, não?

E é nesse cenário que o nosso herói e também bombeiro, Guy Montag (Michael B. Jordan), conhece a misteriosa e fichada Clarisse McClellan (Sofia Boutella), e começa a se questionar sobre a realidade em sua volta – uma típica alegoria da caverna de Platão – Ele acaba se envolvendo com ela e com os livros, dando motivos o suficiente para o  capitão Beatty (Michael Shannon) desconfiar de uma deserção. E assim o telefilme vai se desenrolando. Clarisse leva Montag para o lado ‘’celulose’’ da força, acarretando em uma demissão do nosso protagonista da corporação. É claro que o Capitão Beatty não fica nem um pouco satisfeito com isso, e descobre outras coisas mais do que rola no submundo da literatura. É, meus amigos, existe um grupo rebelde, no qual Clarisse apresenta Montag, que nada mais, nada menos, são pessoas que decoram livros para que eles sejam publicados quando a opressão acabar.

Nosso herói é confrontado pelo Capitão Beatty, e é nesse momento do filme que eu pensei que Montag só tinha feito cena esse tempo todo para descobrir o que rolava no clube do livro, no qual Clarisse faz parte, e meio que estava tentando se safar da saia justa. Mas o que rolou mesmo foi uma lavagem cerebral feita pelo Capitão em nosso protagonista. Ele, de repente, volta a ser um Charizard de livros, mas sua lealdade é colocada à prova quando o corpo de bombeiros vai fazer uma vistoria na casa de Montag. Hmm, corre Bino, é cilada! Chegando lá, eles descobrem inúmeros livros, que logo são incinerados e televisionados para toda a sociedade. Montag se rebela e foge. Para onde? Acertou mizerávi! Pro reduto do grupo rebelde! Lugar que estava na mira do Capitão Beatty, e o final de Fahrenheit 451 você confere na HBO, este sábado, às 22:00.

Em questões técnicas, a HBO não decepciona. É um telefilme bonito de se ver pela fotografia. A presença predominante do vermelho-amarelado do fogo, contrasta com as cores da iluminação artificial nas cenas. É um filme bem escuro e não vemos cenas diurnas, mas isso se justifica pela história. A trilha sonora acompanha os momentos de tensão, mas não traz nada novo. Se você espera um Hans Zimmer, esquece! É bem ok.

Temos que lembrar da atuação do Michael Shannon, é boa. Eu, particularmente, gostei muito. Dá vontade de entrar na TV e socar a cara dele. Mano? São só livros! Para com essa ideia fixa de querer queimá-los. A escolha de Michael B. Jordan como Montag, também é louvável.

Fahrenheit 451 cumpre o papel de levar a reflexão ao público de uma forma mais enxuta para quem conhece a obra de Ray Bradbury. Uma coisa eu pensei, a tecnologia é realmente muito maleável às mudanças a qualquer hora e tempo, principalmente quando usada para fins de massificação de cultura, que é a reflexão principal do telefilme.  Por outro lado, a literatura está intacta, e a sua mensagem passa por gerações. Aquilo que é escrito, fica.

Posso falar que a grande reflexão feita por Ray Bradbury, autor do livro, em 1953, pós Segunda Guerra Mundial, era obviamente a supremacia da televisão e de ideias difundidas às pessoas pelas programações, e o quanto isso impactaria na literatura. Hoje, diante das constantes mudanças tecnológicas, ao assistir  Fahrenheit 451, vejo que é um filme feito em 2018 para o ano de 2018, e nunca teve tanto sentido assim como tem hoje. Percebo que a reflexão não é somente pela presença da televisão e sua programação, mas sim o surgimento de inúmeras tecnologias que sempre ameaçam a última linguagem inventada. Aposto que a grande pergunta quando o livro foi lançado era: será que a televisão vai tomar o lugar da literatura?

É claro que o ser humano sempre tenta unir o útil ao agradável, e adequa o físico com o digital, questão também abordada no começo do filme, onde os bombeiros queimam tablets de pessoas que estavam fazendo a transferências dos conteúdos dos livros para o digital. E essa abordagem, na versão 2018, é essencial para mostrar que hoje eu posso ler qualquer obra em um tablet ou computador. Isso realmente é muito black mirror, cara! Vemos então que adequar o físico com o digital não é problema, já que o conteúdo permanece o mesmo. A resposta está no poder que os livros trazem, a mensagem que transmitem, sejam eles escritos, impressos ou reproduzidos. A grande reflexão é sobre o conteúdo que é criado e transmitido de forma massiva, e o quanto ele é maleável à manipulações.

Minha recomendação? Assista à Fahrenheit 451 e, principalmente, leia o livro! Aproveita enquanto eles não são queimados. Corre, Berg, corre!