O coelho da cartola de Jessica Jones

O coelho da cartola de Jessica Jones

É engraçado pensarmos que a tempos atrás estávamos todos vidrados, babando em frente a sensação que era ver nosso Demolidor indo como aposta para um série. Com todo esse hype inesperado, a nova original da Netflix Jessica Jones (que você pode conhecer melhor aqui) trouxe de volta aquele momento de sentar na ponta da cadeira enquanto seu coração dispara. Prometo manter os spoilers o mais longe possível!

Krysten Ritter - Já acabou Jessica?
Krysten Ritter – Já acabou Jessica?

Bem, Jessica está bem fora do panteão de super heróis Marvel, não importando a mídia que você consuma. Basicamente fomos acostumados a ver os rostos conhecidos do Capitão América, Homem de Ferro, Thor e sua turma depois de todo o sucesso dos Vingadores (2012), o que é muito bem pontuado durante os episódios da série. Apesar dos super poderes, Jessy está mais pé no chão que outros companheiros de editora: ela ainda sangra, bebe, acorda descabelada, bebe, tira a calça pisando na barra, bebe, transa, bebe, reclama do trabalho e incessantemente aparece acompanhada de seu whisky barato.

Krysten não possui o corpo com ar heroico que acostumamos a ver e isso serve muito bem como quebra de paradigma: chega a ser engraçado vê la arremessar um cara contra uma parede ou contracenando com Luke Cage (Mike Colter) e seus músculos. Ritter assume bem seu papel e demostra sempre estar preocupada e muito fodida com seus problemas pessoais.

Falando no Luke …

Esqueça Terry Crews como Luke Cage amigô.
Esqueça Terry Crews como Luke Cage amigô.

Ele está lá, com sua camiseta amarela no primeiro capítulo, todo o ar calmo e canastra do Luke está lá em meio a algumas cenas. Claro, creio que não dá pra colocar o personagem em todo episódio já que ele ganhará a própria série vindo no combo pacotão Netflix da felicidade (caso não saiba, linka aqui). Não me importo em não desenvolver tanto a história dele por conta do motivo acima, mas isso automaticamente cai em relação a outros personagens no decorrer da trama.

Entendo que por situar todas as séries Netflix em um mesmo universo, é inevitável a comparação com seu amigo da Hell’s Kitchen Demolidor, onde isso pode atrapalhar se colocar aos personagens coadjuvantes. Foggy Nelson e Karen Page foram amplamente bem desenvolvidos na primeira temporada, desde a relação direta de faculdade com Murdock até o relacionamento com Karen. Tudo parecia girar e se encaixar perfeitamente.

Com excessão de Trish e Luke Cage, outros personagens coadjuvas são bem mal explicados e as vezes até descartáveis (*segurei meus spoilers pra não acabar com a magia da série), simplesmente jogados em tela pra preencher buraco ou unir uma ponta. Não esperava contar toda uma história de vida de todo mundo mas pelo menos dar um pano de fundo mais denso.

A música e cenário são em conjunto um personagem a parte. Aquele clima de mistério e investigação te prende na cadeira, com fones de ouvido no talo e aquela mistura de blues, jazz migrando pra solos de guitarra te fazem sentir parte daquilo, junto a toda ambientação suja e escrota de uma cidade VISIVELMENTE sofrida pelos danos da equipe de super heróis mais poderosos da Terra. Aqui, é até interessante colocarmos as referências a todo universo Marvel, já que é tudo meio explicito sobre o próximo filme do Capitão América (Guerra Civil) e o destino dos heróis em prol da lei de registro do governo. Até citar e mostrar o uniforme de Safira Jessica faz, insinuando que o nome é de uma dançarina sexy.

Capitão Referência!
Capitão Referência!

Amigô, se você não conhece David Tennant e seu trabalho em Doctor Who eu até aceito mas caso você, nem por um segundo não odiar Kilgrave, você é uma pessoa ruim no mundo.

Tennant mostra se apenas como uma visão sofrida de Jones em seus vislumbres solitários. É interessante notar que o cenário já deixa claro de quando nossa heroína é tomada por toda sua psicose de controle mental do Homem Purpura, mesclando a coloração com um fundo roxo do vilão. Andando em uma corda bamba de humor sarcástico e uma psicopatia louca, Kilgrave mostra se digno de igualar se tomando a cena com Loki como foi no primeiro Vingadores.

Na verdade, vemos poucos traços de um controle mental foda, acertando em retratar os poderes do vilão mais pelos efeitos colaterais de quem foi “usado” ou controlado, chegando a duvidarem da própria vontade de fazer algo. Oscilando entre esse mar de paranóia e alucinação, é inevitável não odiar o “ser humano” que Tennant representa, com seu ar soberbo e egocêntrico. Esse ódio todo fica claro quando o vilão controla uma criança para dar um recado ou pede para que o dono de uma banca jogue café quente no próprio rosto por puro luxo.

Palmas para David Tennant
Palmas para David Tennant

No final das contas, Jessica Jones é mais uma prova de que o universo de Netflix lida com os problemas urbanos, deixando toda a ladainha de invasão alienígena e inteligência artificial consumidora de mundo pros caras que realmente conseguem lidar com isso. Enquanto prédios caem no alto com todo esse ataque glamourizado, a Netflix trabalha o que ocorre pós isso com toda a luta e reconstrução da cidade.

Vale MUITO a pena acompanhar a série mas no último episódio você percebe que é uma série de investigação tão divertida quanto as outras que já acompanhamos. A diferença é que possuem personagens e heróis que conhecemos e torcemos por isso. Só!